Já não somos quem éramos

Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados,
nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência.
Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira.
Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou,
deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos.
Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus,
para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus.
Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus;
não por obras, para que ninguém se glorie.
Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos.

Efésios 2:1-10

 

INTODUÇÃO

Fato:

O verdadeiro cristão sabe que já não é quem era.

Ilustração:

Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus. É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo. […]Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. Ele retrucou: Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo – Jo 9.1 a 7, 24 e 25

Os cristãos de Éfeso tinham vivido a vida toda imersos no paganismo. Porém o evangelho chegou a eles:

Nesse meio tempo, chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Era ele instruído no caminho do Senhor; e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava com precisão a respeito de Jesus, conhecendo apenas o batismo de João. Ele, pois, começou a falar ousadamente na sinagoga. Ouvindo-o, porém, Priscila e Áquila, tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus. […] Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido; porque, com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus – Atos 18.24 a 28

Logos após a saída de Apolo de Éfeso Paulo e sua equipe missionária chegaram:

Aconteceu que, estando Apolo em Corinto, Paulo, tendo passado pelas regiões mais altas, chegou a Éfeso […] Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus. […] Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer diariamente na escola de Tirano. Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos – Atos 19.1, 8 a 10

O Doutor Martin Loyd-Jones em seu livro Reconciliação – o Método de Deus (Editora PES, 1995) nos fornece uma excelente exposição do texto de Efésios 2.

Ele inicia sua exposição esclarecendo que o capítulo 2 amplia o que foi dito no capítulo precedente. Sua ênfase inicial recaí sobre a importância de não perder de vista o que foi dito a respeito do propósito de Deus:

… desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra – Ef 1.9 e 10

  1. QUEM ÉRAMOS? – VERSOS 1 A 3

Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais – Efésios 2.1 a 3

Fato:

Ele vos deu vida… – verso 1a

O Doutor Jones ressalta que esses de quem se diz que foram vivificados por Deus são os mesmos que no capítulo 1 foram chamados de “santos e fiéis”, os que foram abençoados “com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”, foram escolhidos “antes da fundação do mundo”, adotados na família de Deus, redimidos e remidos pelo sangue de Jesus Cristo, selados pelo Espírito e tornados herança de Deus. Por esses Paulo ora a Deus – versos 15 a 23.

Esses mesmos foram vivificados porque outrora estavam mortos em delitos e pecados. Deus os vivificou. Eles não podiam fazer isso. Mortos precisam de vida, e vida é o que eles não possuem e não conseguem prover para si mesmos.

… estando vós mortos nos vossos delitos e pecados – Ef 2.1b

Depois dessa declaração Paulo faz um diagnóstico do passado dos cristãos de Éfeso. Para o “doutor” Paulo eles estavam mortos porque andavam, faziam e, por isso tudo, eram:

  1. Estavam mortos em delitos e pecados
  • Mortos – nekros

Vivos, porém, mortos – o paradoxo do homem sem Deus.

Estando separados de Deus, a fonte da vida, estavam vivos biologicamente, porém, mortos espiritualmente.

A salvação chega a nós onde estamos; não onde gostaríamos de estar nem como gostaríamos de pensar em nós idealisticamente – Martin Loyd-Jones

  • Delitos – paraptoma – transgressões

Jamais iremos ter uma compreensão da grandeza da graça de Deus que nos salva se não compreendermos a gravidade de nossos pecados.

Os delitos e pecados são as razões de estarmos mortos. Mortos em função dos delitos e pecados.

Aquele que não foi vivificado por Deus jamais compreenderá que está morto e que precisa ser objeto do grande amor de Deus.

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos – Isaías 53.6

Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. […] Por isso, está longe de nós o juízo, e a justiça não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que há só trevas; pelo resplendor, mas andamos na escuridão. Apalpamos as paredes como cegos, sim, como os que não têm olhos, andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas e entre os robustos somos como mortos – Is 59.1, 2, 9 e 10

  • Pecados – hamartia – lit. errar o alvo

Por mais que se esforçassem por atingir o alvo de Deus eles sempre ficavam aquém.

As teorias da evolução (Darwin) e as teorias contratuais (Rousseau) defendem que o homem é bom, naturalmente bom. Essas teorias são meras utopias.

As utopias humanas receitam aspirinas aos mortos – Martin Loyd-Jones

A doutrina das Escrituras é bem realista.

… nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne – Ef 2.2 e 3a

  1. Andavam: (se comportavam, modo de vida, hábito)

O andar é consequente ao estar. Por estar morto em delitos e pecados o homem natural anda segundo um modo de vida diverso da vontade de Deus.

Porque estávamos mortos em delitos e pecados, andávamos:

  1. Segundo curso desse mundo (aiōna tou kosmon)
  • Mundo – kosmos – mundo, tempo, era

O curso do mundo é o caminho percorrido pelos que não foram vivificados. É um modo de vida sob o controle, a perspectiva e a mentalidade do mundo.

Andar segundo o curso do mundo se opõe a andar segundo a vontade de Deus:

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus – Rm 12.2

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente – 1Jo 2.15 a 17

O homem natural vive um “the walking dead” da vida real.

  1. Segundo o príncipe da potestade do ar
  • Potestades – exousia – domínio, autoridade, poder de obrigar fazer.

Paulo se refere a um princípio ou força controladora que opera no mundo e dá a direção a todos que buscam no mundo sua orientação de vida. A vida no pecado não é uma vida passiva, é uma vida ativa e má em si mesma.

Como num corpo em decomposição as forças que ali operam, ainda que imperceptíveis levará tal corpo ao extermínio total.

Paulo enfatiza que há um princípio mau em ação no mundo conduzindo a vida dos que não foram vivificados por Deus.

O príncipe da potestade do ar é uma referência direta ao diabo, o maligno:

Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno – 1Jo 5.19 (ARA)

Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno – 1 Jo 5:19 (NVI)

  1. Segundo as inclinações da carne
  • Inclinações – epithymia – desejo forte e controlador

Paulo enfatiza aqui o caráter ativo e prático do pecado. Pecado não é algo passivo e negativo no sentido de não ser algo também ativo e consciente, intencional e premeditado.

O homem natural é primeiramente incitado à desobediência e então capitula aos desejos e inclinações de sua carne e age conscientemente contra o que sabe ser o certo a fazer.

  • Carne – sarx – sentido ético, o que é contrário ao espírito

Os desejos carnais se referem à autoafirmação do homem, seu posicionamento rebelde contra Deus, autossuficiência, seu desejo de ser deus.

… fazendo a vontade da carne e dos pensamentos – Ef 2.3b

  1. Faziam a vontade da carne e dos pensamentos
  • Vontade – thelema

O homem autônomo é o que se pensa do homem que de todos os modos pode gerir todos os seus interesses e que não precisa da ajuda nem de assistência de parte alguma, nem mesmo de Deus! O homem autônomo, o homem autossuficiente, o homem autodeterminado, o homem independente, o homem como deus, o homem como o senhor do universo, o homem num trono e sobre um pedestal – Martin Loyd-Jones

A vontade da carne e dos pensamentos é a vontade de ser deus.

… e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais – Efésios 2.3c

  1. Eram, por natureza, filhos da ira
  • Por natureza – physe – a velha natureza decaída e escrava do pecado.
  • Filhos – tekna – filhos não emancipados, fig. destinados a experimentar.
  • Ira – orge – indignação, fúria, raiva, animosidade.

Com base no “ser humano natural” em 1Co 2.14, “por natureza” deve ser entendido como conceito oposto ao “ser humano espiritual”: por si mesmo nenhum ser humano é capaz de romper os liames do pecado e praticar a vontade de Deus. Por essa razão todo ser humano é réu do juízo da ira divina. (Eberhard Hahn)

O resultado da desobediência é a inimizade contra Deus. Por serem guiados pelo curso desse mundo, amam o mundo e se tornam assim inimigos de Deus:

Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus – Tg 4.4

Sem dúvida um diagnóstico sombrio. Avida do homem sem Deus é uma vida infeliz, uma morte em vida, uma vida maldita.

  • Todos nós – pantes hemas – toda a humanidade indistintamente – Ef 2.3

O pecado afetou toda a humanidade (extensão) e a humanidade toda (profundidade).

… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus – Rm 3.23

  1. MAS DEUS… – VERSOS 4 A 7

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus – Efésios 2.4 a 7

Deus é “o Grande Porém” na vida de um cristão verdadeiro.

Diante do sombrio pano de fundo da descrição de como o ser humano é refém da morte, Paulo coloca o “porém” da misericórdia divina. A “riqueza de sua graça” (Ef 1.7) que ele “fez derramar” sobre os crentes (Ef 1.8) é completada agora com a declaração de que Deus “é rico em misericórdia”. De conformidade com sua misericórdia “ele nos salvou” (Tt 3.5) e “nos fez renascer para uma viva esperança” (1Pe 1.3). Essa misericórdia concretizou-se em “seu grande amor, com o qual nos amou”. A magnitude desse amor que se evidencia em Jesus Cristo é enaltecida por Paulo em Rm 8.35-39 (cf. também Jo 3.16; 13.1): a entrega do único Filho amado é a fiança do amor supremo de Deus. Ele não si restringe a si mesmo, mas dirige-se aos seres humanos. Isso é exclamado na proclamação do evangelho e deve conduzir ao testemunho da fé: com esse grande amor ele amou a nós! (Eberhard Hahn)

Sem Deus não há diferença entre o outrora e o agora:

Jesus Cristo é o centro – o locus – da salvação – nos deu vida juntamente com Cristo.

Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz – Ef 5.8

  • Outrora – trevas
  • Agora – luz no Senhor

Tudo se deve à misericórdia, graça e amor de Deus. E tudo é para glória de Deus – Martin Loyd-Jones

Atributos de Deus que são causa eficiência de nossa salvação:

  • Misericórdia
  • Amor
  • Graça

O agir de Deus no tempo:

  1. Vivificação em Cristo – nos vivificou (tempo passado)

nos deu vida juntamente com Cristo

Aqueles que estavam mortos em delitos e pecados agora estão vivos, vivificados em Cristo.

  1. Ressuscitar – nos ressuscitou (tempo passado)

nos ressuscitou

A identificação do cristão na morte e ressurreição de Cristo é o como da vivificação em Cristo.

  1. Assentar nos lugares celestiais em Cristo – (tempo passado)

e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus – “os mais altos céus”.

Aqueles que estavam sob o domínio “do príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” foram colocados numa posição de autoridade e domínio sobre esse e outros espíritos.

Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles – Hb 1.3 e 4

  1. Para mostrar … (tempo futuro)

para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus

A realização de Deus para a salvação do mundo ao enviar Jesus Cristo é expressão da riqueza de sua graça, que supera qualquer medida (cf. também 2Co 9.14). Paulo havia falado em Ef 1.19 sobre a “sobrepujante magnitude de seu poder” diante dos crentes; em Ef 3.19 ele usa o mesmo termo para designar o amor de Cristo que supera qualquer entendimento. (Eberhard Hahn)

Isaac Watts afirmou:

Os que da graça vivem enxergaram

O começo da glória neste mundo;

Frutos celestiais em chão terrenal

Da esperança e da fé podem crescer.

  • SALVOS PELA GRAÇA – VERSOS 8 A 10

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas – Efésios 2.8 a 10

Salvos pela graça. A graça é a causa eficiente da salvação:

“Salvar” significa arrancar dos liames dos pecados e do iminente juízo da ira. Este é certamente um termo central da mensagem cristã. Na verdade, essa salvação acontece “na esperança” (Rm 5.9; Rm 8.24), visto que ela é real no presente pela fé, mas somente se manifestará com alcance pleno no dia de Cristo (1Co 1.8). Esse salvamento de forma alguma está ao alcance do ser humano, mas acontece exclusivamente “por graça”, sendo prova da “rica misericórdia” e do “grande amor” de Deus (Ef 2.4). (Eberhard Hahn)

Mediante a fé. A fé é a causa formal da salvação:

A própria fé que propicia salvação, pela qual o cristão recebe a graça, é parte do presente divino: “e isto não vem de vós, é dom de Deus”. Visto que a fé nasce de ouvir a palavra de Deus (Rm 10.17), ela não é algo humanamente possível. No entanto é uma fé que apreende a Jesus Cristo, obtendo assim a outorga de toda a riqueza. Essa é a dádiva concedida por Deus. O conceito “dádiva” pertence ao mesmo grupo semântico da palavra “gratuitamente” em Rm 3.24. O mesmo ocorre com a expressão “dom”, que Paulo emprega, além de Rm 5.15ss e 2Co 9.15, em Ef 3.7 e 4.7. (Eberhard Hahn)

 

Em primeiro lugar Paulo faz uma afirmação de caráter universal.

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus – verso 8

A afirmação de que a salvação é pela graça mediante a fé é colocada em contraposição à negativa “não vem de vós”. Se não vem de nós, segue-se que procede de Deus. É dom de Deus, uma dádiva oferecida gratuitamente e recebida pela fé em Cristo.

Em seguida ele faz uma negação particular:

… não de obras, para que ninguém se glorie – verso 9

Também aqui é flagrante a relação com a refutação da justificação por obras nas demais cartas de Paulo. Tudo o que o ser humano visa realizar “a partir de si” para sua salvação é “obra”, e por isso insuficiente. A graça de Deus exclui o sinergismo humano, porque somente assim é e continua sendo cabalmente graça. (Eberhard Hahn)

Somos feitura dele. Nós somos a causa material da salvação:

Enquanto o velho ser humano é crucificado com Cristo e entregue à morte, Deus cria o novo ser humano – sua obra (cf. Ef 4.24). Também dessa perspectiva da nova criação cabe concluir que o gloriar-se por parte do ser humano não possui fundamento algum (“porque”). No mesmo contexto de Ef 2, também Rm 6 fala da nova criação de Deus (cf. acima o exposto sobre Ef 2.5s). Chama atenção que em Rm 6.4 a “novidade da vida” também esteja ligada ao compromisso com uma conduta correspondente. A referência à nova criação aparece da mesma maneira em Gl 6.15 e 2Co 5.17, sendo que em 2Co 5.18 é estabelecida a conexão com o agir de Deus: “Ora, tudo (provém) de Deus.” (Eberhard Hahn)

Criados em Cristo Jesus:

O alvo dessa nova criação é descrito com uma dupla afirmação: “para boas obras…, para que andássemos nelas”. Embora ninguém seja capaz de produzir ou favorecer sua redenção através de obras próprias, o crente nunca existe sem obras. Pelo contrário, a tarefa de sua vida consiste em realizar boas obras, andar “nessas obras” (novamente o conceito espacial). Em Ef 1.15 o autor já mencionara que a fé em Cristo sempre envolve o ser humano inteiro, visto que ela o transporta “ao raio de ação de Jesus Cristo”. Tal fé sempre atua no amor (Gl 5.6), em boas obras.A oração subordinada adjetiva “que Deus preparou de antemão” assegura que essas obras, por serem fruto da gratidão a Deus, não podem furtivamente voltar a ser entendidas como meritórias. Além da presente passagem, a expressão ocorre somente em Rm 9.23, que fala da livre eleição da graça de Deus com vistas às “vasilhas” “que ele de antemão preparou para a glória”. (Eberhard Hahn)

CONCLUSÃO

Estávamos, andávamos e fazíamos o que não deveríamos fazer.

Éramos filhos da ira de Deus como todos os demais.

Mas, Deus…

Fomos vivificados, ressuscitados e exaltados em Cristo

Salvos pela graça mediante a fé para as boas obras.

A glória de Deus é a causa final da salvação.

Fonte: Reconciliação – o Método de Deus https://idoc.pub/documents/martyn-lloyd-jones-efesios-02-reconciliacao-o-metodo-de-deuspdf-klzz8g6pzglg – 15/07/2022

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