A Graça que salva e educa

Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras – Tt 2.11 a 14

 

INTRODUÇÃO:

O contexto do Texto:

Com relação à origem desta carta CARSON opina que provavelmente a carta foi escrita de Nicópolis ou a caminho de Nicópolis (1997, p-423). Todavia, parece mais plausível, ficar com a hipótese de que Paulo escreveu a carta a Tito depois de sua primeira prisão em Roma, em meados da década de 60 AD. a caminho de Nicópolis, onde Paulo pretendia passar o inverno (Tt 3.12).

A carta foi endereçada a Tito (1.4), CALVINO, (1998, p. 295) porém, afirma que possivelmente tenha sido endereçada à comunidade cristã de Creta. Sua argumentação era que o povo estava duvidando da autoridade apostólica de Tito. Daí então a necessidade de Tito ter um documento do próprio apóstolo Paulo autenticando sua autoridade. KELLY (1991, p. 10) concorda ao afirmar que “estas duas cartas, embora sejam endereçadas a indivíduos, claramente visam ser lidas em alta voz à congregação reunida também. Este fato se ressalta especialmente nas saudações no fim, que estão no plural”.

Paulo deixou Tito em Creta (1.5), para que ele desse continuidade ao trabalho missionário. Tito deveria permanecer em Creta até que Tíquico ou Ártenas o substituíssem (3.12), para depois viajar para Nicópolis onde Paulo desejara passar o inverno. E parece que Tito cumpriu as ordens de Paulo pois conforme em 2Tm 4.10, Tito seguiu para Dalmácia, provavelmente para desenvolver ali seu ministério.

 

CRETA:

Creta era a maior ilha de um conjunto de ilhas no meio do Mediterrâneo. A ilha de Creta era muito importante comercialmente. Ela se localizava em um ponto muito estratégico para todos os navios que precisassem cruzar o mar Mediterrâneo. SPAIN (1980, p. 183) observa que Creta se achava situada em um ponto favorável, como a maior de uma cadeia de ilhas que serviam como uma série conveniente de trampolins para o tráfico que se fazia entre a Grécia e a Ásia Menor. Todo tipo de gente ancorava nos portos de Creta. Os judeus exerciam muita influência em Creta.

No ano 141 a.C. os judeus da ilha tinham se tornado suficientemente fortes para obter o apoio político de Roma, o que os tornou ainda mais prósperos e influentes. Devido aos laços religiosos dos judeus cretenses com Jerusalém o povo estava exposto a influências do oriente. Roma anexou Creta em 67 A.C. e a uniu a Cirene, uma parte da Líbia na África do Norte, como uma só província. Política e geograficamente Creta estava exposta às influências europeias ao norte, e às do Egito, Líbia e Cirene ao sul. (SPAIN, 1980, p. 183).

Creta além de ser uma ilha importante sofria várias influências. No Pentecostes (At 2.10 e 11), judeus cretenses testemunharam o estabelecimento da igreja, possivelmente ao retornarem fundaram as igrejas de Creta, onde Paulo e Tito trabalharam.

Eugene PETERSON (2017, p. 155) observa:

É tentador caricaturar Creta como uma espécie de faroeste do primeiro século, uma sociedade semianarquista sem muita experiência social – espírito independentes, patrulheiros solitários com inciativa própria. […] Com certeza, Creta tinha por trás de si uma civilização estimada. Mas isso era passado e a imagem popular de Creta no primeiro século é mais parecida com o que estou propondo como um faroeste.

Para reforçar sua tese PETERSON (Idem, p. 156-157) cita o mito de Minos.

Minos, rei de Creta, tinha um touro bravio do qual ele gostava muito. […] Mas um dos deuses ficou irritado com Minos por ser tão egoísta com o seu touro e fez com que a esposa deste, Pasifae, fosse tomada por paixão pelo touro. Ela foi rapidamente transformada em uma vaca, consumou a sua paixão e, depois, deu à luz um monstro metade humano e metade touro, o lendário Minotauro.

O Minotauro, segundo a lenda se alimentava exclusivamente de carne humana. Para proteger seu reino Minos obrigou Dédalo e seu filho Ícaro a construir um labirinto e prendeu o monstro nele. Minos, tendo subjugado Atenas obrigava os governantes atenienses a pagar um tributo anual de sete donzelas e sete rapazes para serem jogados no labirinto e serem comidos pelo Minotauro. Diz ainda a lenda que um jovem grego por nome Teseu, ajudado por Ariadne, filha de Minos, entrou no labirinto e matou a fera pondo fim à sangrenta saga de Minotauro.

Essa lenda lança luz sobre o modo de vida da sociedade cretense, porém é Epimênedes de Cnossos, um poeta nascido em Creta quem nos dá a conhecer o contexto cultural de Creta. Segundo ele, seus contemporâneos eram “… sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos” – Tt 1.12.

Essa avaliação desfavorável é reforçada pelo comentário de Kelly a respeito da origem do termo “cretino”, pois segundo ele “o verbo “cretizar” (em grego kretizein) era uma gíria para mentir ou trapacear”. Daí o termo pejorativo “cretino” que significa trapaceiro, mentiroso, como um cretense.

Paulo incumbiu Tito de escolher e ordenar anciãos, criando líderes confiáveis e dignos de liderar. Assim como Paulo fez de Tito um líder Paulo queria que Tito também tivesse a mesma preocupação de ter auxiliadores. Esse parece ser um estilo de liderança de Paulo, uma liderança com o auxílio de anciãos, KELLY (1991, p. 22) escreve: Na realidade, toda comunidade judaica, na Palestina ou na dispersão igualmente, tinha uma mesa de anciãos na sua liderança, e, portanto, é extremamente provável que Paulo tivesse com naturalidade encorajado a nomeação de tais mesas nas igrejas pelas quais era responsável.

Paulo também exorta a Tito a ministrar nas vidas dos fiéis (2.1 a 3.11), Tais como velhos, mulheres idosas, jovens e escravos (2.1 a 10). A submeter-se as autoridades (3.1 e 2) e mostrar-se acolhedores com todos. Que todos os crentes deveriam viver corretamente, aguardando a glória de Deus (2.11 a 15). Paulo também faz um contraste entre a maneira de como as pessoas viviam antes de nascerem de novo e como devem viver agora (3.3 a 8). Podemos concluir que a missão que Tito tinha que exercer era de transformar as igrejas de Creta em verdadeiro corpo de Cristo. Para tanto Paulo recomenda que Tito dependa da graça de Deus:

Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, […] aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras – Tt 2.11 a 14 (editado)

O presente hino exalta a graça de Deus, manifesta no passado (v. 11), que educa os discípulos de Jesus no presente (v. 12), cuja revelação plena é aguardada no futuro (v. 13), cujo alicerce e força são o amor do Redentor, que purifica seu povo e o leva a viver com zelo sagrado (v. 14). (BURKI, 2007, p. 20)

 

  • A GRAÇA DE DEUS:

Cháris – O termo grego significa: Encanto, doçura, simpatia, favor, graça. Favor não merecido e livremente outorgado, boa vontade, proteção, bondade. Favor divino, contrário ao merecimento humano; TAYLOR (1978, p. 242) citando THAYER diz que graça é: especialmente a bondade pela qual Deus manifesta favores os que estão destituídos de méritos e concede os pecadores o perdão de suas ofensas e os convida a aceitar a salvação eterna em Cristo. A graça aqui é o ato de misericórdia de Deus, em sua bondade de dar vida ao homem através do sacrifício vicário de Cristo. Sua obra redentora foi exclusivamente iniciada por sua própria vontade.

  • A GRAÇA QUE SALVA:

Soterios – O termo grego significa trazendo salvação, libertação, seguida pelo dativo, a palavra significa “trazendo libertação a” e a frase “a todos os homens” pertence ao substantivo, mostrando o escopo universal da salvação cristã. (RIENECKER, 1995, p. 485). O poder da graça nos liberta da escravidão do pecado. Deus não nos vê como pecadores, por que sua graça que é Jesus, nos justificou, sendo assim ele nos vê como justificados. Portanto através de sua graça recebemos a salvação a vida eterna.

SALVO DE QUE? – R. C. SPROUL

  1. Salvos da Ira de Deus – Jo 3.36; Rm 5.9; Ef. 5.6; 1Ts 5:9; Ap 19.15
  2. Salvos do Poder do Pecado – Jo 8.34; Rm 3.9; 6.6 e 16 a 20
  3. Salvos de Nós Mesmos – 2Pe 2.19; Tt 3.3

 

  • A GRAÇA QUE EDUCA:

A salvação de Deus tem aspecto de educar e disciplinar. Conforme COHEN (1984, p. 51) a salvação exige uma condição irrevogável: a renúncia. Assim é com o crente que está debaixo da graça a qual KELLY (1991, p. 221) diz que é aqui personificada, do ponto negativo é orientado a romper com aquilo que não provém de Deus, ou seja, a impiedade e as paixões exclusivas desse mundo. KELLY afirma que “o caráter desse rompimento é ressaltado no original pele palavra traduzida renegadas, que é um particípio no aoristo, que indica uma ação de uma vez por todas”. O caráter aqui é que o cristão deve renunciar para sempre aquilo que que se opõe à fé cristã, e não ficar renunciando temporariamente. Do ponto positivo o crente tem a chance e liberdade de ser ministrado pela influência da graça de Deus. Assim ele é direcionado e capacitado a viver como um filho de Deus. Paulo estabelece como devemos ser bons cristãos. A vida cristã começa com a renúncia da vida anterior como resultado da graça manifestada em nós. Paulo fala que dois aspectos dessa vida são a impiedade e as paixões mundanas. CALVINO (1998, p. 335) inclui na impiedade as superstições que desviam de Deus e a negligência religiosa, e nas paixões mundanas ele inclui todas as afeições da carne. Pois o homem está sempre inclinado para o mundo até que a graça de Deus o liberte e o conduza a uma vida espiritual e piedosa. […] Na ética grega o que movia era a razão e a vontade do cidadão, e aqui o que move é a graça de Deus. SPAIN (1980, p. 204) iz que: “a graça de Deus nos salva educando-nos”. Pois, “Jesus Cristo, a suprema manifestação do amor de Deus, veio pregando e ensinando. A tarefa de ensinar e pregar é o meio divino da graça”. Um dos aspectos da graça é que ela nos ensina. Assim podemos aprender a participarmos da glória de Deus.

  • A QUE A GRAÇA NOS EDUCA?
  • A graça primeiramente nos educa a renegar (renunciar, rejeitar, abandonar, abrir mão):

…educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas… – Tt 2.12a

O primeiro alvo da educação na graça é que aprendamos a renegar! Essa não é uma instrução formal ou frouxa, mas consequente e decisiva. Renegar significa renunciar, abdicar, ser capaz de dizer não. O tempo verbal (particípio do aoristo) poderia ser vertido literalmente para: depois de termos decididamente rompido com o pecado no passado, prosseguindo agora nessa abdicação; confirmar, por meio do comportamento atual, a abdicação já realizada. A lei induz o ser humano a dizer “não” precipitadamente, por medo da punição, sem que de fato esteja convicto no coração da necessidade desse não. A graça tem o poder de realmente convencer do pecado. A paciência de Deus pode conduzir à contrição e ao arrependimento verdadeiros, porque à luz do amor se torna nítido que o pecado nunca vale a pena, nunca traz o enriquecimento esperado, e que, pelo contrário, sob a influência da graça a negativa é reconhecida e viabilizada não apenas como necessária, mas como algo que serve para nosso bem máximo. Quando um ser humano se torna capaz de dizer não de todo o coração, isso não é nada menos que um milagre da graça. (BURKI, 2007, p. 21)

  • A IMPIEDADE:

Asebeia – O termo grego quer dizer impiedade, a rejeição de tudo que é reverente e de tudo que tem a ver com Deus. (RIENECKER, 1995, p. 485). SPAIN diz a palavra indica um vida impura, e que é uma negação do termo eusebeia (piedade) que é uma das palavras-chaves de 1 Timóteo. (1980, p. 42)

Asebia contrapõe-se à verdadeira veneração de Deus, à devoção (eusebeia), mencionada no mesmo versículo. A palavra aponta para o passado, para uma vida sem e contra Deus. Se a impiedade fosse renegada definitivamente, não seria preciso exortar, as cartas apostólicas não seriam necessárias, a graça de Deus não precisaria disciplinar nem educar. (BURKI, 2007, p. 21)

  • AS PAIXÕES HUMANAS:

Epithymias – O termo grego significa forte desejo, concupiscência, um desejo dominante e persistente. (RIENECKER, 1995, p. 485). SPAIN diz que o sentido da palavra pode ser amor pelo mundo. (1980, p. 204).

Para João Crisóstomo as paixões mundanas são aqueles desejos que não levaremos quando formos para o céu.

Quando as paixões mundanas não são renegadas, a graça se torna barata, a pessoa se evade da escola dela. Muitos métodos de evangelização e missão se mostram não bíblicos quando falam apenas da fé no Salvador dos pecadores, mas não igualmente da abdicação ao pecado. (BURKI, 2007, p. 21)

  • A graça também nos educa a viver:
  1. Com sensatez
  2. De forma justa
  3. Em piedade
  4. Em santidade

…vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras – Tt 2.12b a 14

Somente estando em absoluta dependência da graça de Deus manifesta em Cristo é que os cristãos podem viver plenamente a vocação celestial.

 

VIVENDO DE FORMA SENSATA

O termo grego sōphrōsynē e seu cognatos são fartamente usados na literatura grega clássica.

O termo sōphrōnein é usado por Ésquilo na tragédia Os Persas (827 a 832) no episódio em que o espírito de Dario aparece a Atossa, e o exorta a aconselhar os anciãos para que intercedam perante Xerxes a fim de que cesse de provocar a ira de Zeus, aquele que castiga os homens de mente soberba, agindo com “prudência” (sōphrōnein) e não com arrogância. Em Antígona fica evidente que prudência está relacionada à observação dos limites impostos pelos deuses aos homens. Ao cruzar os limites impostos pelos deuses, Creonte recebeu duro juízo sobre seus atos imprudentes. Atenas refere-se a Ajax, (Ajax, 119) num diálogo com Odisseu e afirma que ela não poderia “ter encontrado homem mais prudente”. Electra (Electra, 346) adverte sua irmã Crisótemis a que “escolha entre ser prudente ou ser imprudente”.

Viver de forma sensata deve ser entendido em termos de viver dentro dos limites pré-estabelecidos por Deus a nós. Para tanto é preciso que conheçamos quais são esses limites. O bom senso deve ser o critério de nossas ações e reações. Uma forma eficaz de viver dentro dos critérios do bom senso é viver praticando a justiça.

A sensatez é o alvo da educação da graça: é a límpida sobriedade e vigilância que resulta da negação dos desejos secretos e do perdão obtido. Na sensatez não poderá prevalecer a auto-ilusão nebulosa. Vigilância total na atualidade para a vida de hoje, total plenitude de expectativa (v. 14), isso não é o produto final da autodisciplina, mas efeito da graça, a única que viabiliza a responsabilidade pessoal sensata e que propicia a tudo um novo objetivo. (BURKI, 2007, p. 22)

 

VIVENDO DE FORMA JUSTA

O trabalho e a justiça formam o cerne da concepção de Hesíodo a respeito da virtude. Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias (213~217) aconselhou seu irmão Perses:

Tu ó Perses, escuta a Justiça e o Excesso não amplies! O Excesso é mal ao homem fraco e nem o poderoso facilmente pode sustentá-lo e sob seu peso desmorona quando em desgraça cai; a rota a seguir pelo outro lado é preferível: leva ao justo; Justiça sobrepõe-se a Excesso quando se chega ao final: o néscio aprende sofrendo.

Aristóteles na Política reforça a tríplice divisão dos bens humanos: os da alma, os do corpo e os exteriores e afirma que todos devem ser encontrados naquele agente moral que é bem-aventurado (makarios). Esse também deve ter coragem (andreias), temperança (sōphrōsynes), justiça (dikaiosynēs) e prudência (phronēsis) (1323a25). E conclui “a cada um pertence a felicidade na justa medida em que tenha virtude e temperança, e que aja conforme elas” (1323b20).

Assim,

A coragem, a justiça, a virtude, a sensatez e a prudência da cidade têm a mesma capacidade e a mesma forma que as virtudes que cada um dos homens compartilha e que se chama este homem de corajoso, justo, sensato e prudente. […] O melhor modo de vida que cada um tem, tanto o particular como as cidades, em comum, é o que está acompanhado da virtude que o leva até esse ponto, de modo a participar das ações embasadas na virtude.  (POL.1323b30~40)

Aqueles que foram declarados justos são educados por graça para serem justos (para uma vida justa). 1Ts 2.10 mostra a que se refere “justo”, como o termo visa ser entendido: “Vós e (o próprio) Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós que credes.” Vida santa é diferente de dever e responsabilidade burgueses! A terrível injustiça no mundo tem raiz nas paixões mundanas que extraem sua força motriz da incredulidade. A injustiça não poderá ser dominada se as paixões destrutivas não forem atacadas e despidas radicalmente, até as raízes, no poder da graça salvadora. (BURKI, 2007, p. 22)

 

VIVENDO PIEDOSAMENTE

Sócrates valorizava a vida piedosa:

Deve-se observar que a prudência não consta entre as cinco virtudes alistadas por Sócrates (Protágoras, 349b) onde consta a sabedoria (sophia), a temperança (sōphrosyne), a coragem (andreia), a justiça (dikaiosynē) e a piedade (hosiotēs).

Na Ética a Nicômaco há críticas a respeito da noção socrático-platônica de Bem e elas expressam bem o espírito aristotélico que prefere a verdade “mesmo quando a tese que combate foi proposta por amigos. Assim nasceu o refrão: ‘Platão amigo, porém mais amiga a verdade’.

No entanto, os mais ajuizados dirão que é preferível e que é mesmo nosso dever destruir o que mais de perto nos toca a fim de salvaguardar a verdade, especialmente por sermos filósofos ou amantes da sabedoria; porque, embora ambos nos sejam caros, a piedade exige que honremos a verdade acima de nossos amigos. (EN 1096a15~18)

A devoção acompanhada da justiça e vivenciada com sóbria vigilância diante das paixões próprias e alheias é uma força de cunho peculiar. Não se apresenta com força ostensiva, sua eficácia não é impositiva. Ela é quase óbvia. Apesar disso ela desperta resistência. Não pode ser ignorada, deixada de lado. Essa devoção existe “em Cristo”. Nisso reside seu fundamento e sua eficácia. O alvo da educação da graça é uma espiritualidade que, direcionada integralmente para Deus, vive e age no meio deste mundo, mas de forma alguma no sentido de tentar demonstrar sua característica “mundana” pelo expediente de, na medida do possível, tentar ser igual (ou não-igual!) também a todos os demais. A motivação determinante para essa espiritualidade não é reconhecimento ou rejeição, mas a graça de Deus permanentemente eficaz. (BURKI, 2007, p. 22)

 

VIVENDO COM ZELO E SANTIDADE

O segundo objetivo de Jesus era não só libertar o homem do pecado, mas também, eleger um povo para si. Jesus quer um povo para ter comunhão. E Deus é Santo para o Crente viver com Ele deve ser Santo. O que retorna ao versículo anterior para que vivamos neste presente século sóbria, justa e piedosamente (vs. 12).  A preocupação de ponta a ponta tem sido essas “boas obras”, porém elas devem ser vistas como respostas adequadas à graça de Deus, revelada e tornada eficaz na morte salvadora de Jesus Cisto.  Paulo está dizendo que o crente deve ter uma vida piedosa conforme o cristianismo verdadeiro requer, conforme a graça exige do cristão. Pois a morte de Cristo livrou o homem do pecado e da morte eterna para ter exclusivamente um povo seu.  O homem então deve professar a aceitação dessa graça mostrando que é consagrado à Jesus Cristo, caso esteja vivendo licenciosamente no pecado está negando a graça de Deus.

A purificação sucede a libertação, representando aqui uma referência à santificação. “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus.” Essa palavra de 2Co 7.1 é o melhor comentário à presente passagem. A promessa e expectativa de seu retorno não são substitutivos nem levam a um indolente deixar-correr, mas tornam sóbrio e libertam para a santificação. O alvo da purificação torna-se explícito em uma nova disposição e capacidade para o bem:

Zeloso de boas obras: Paulo declara que no passado foi zeloso (zelotes) nas tradições dos ancestrais. Agora, porém, encontrou um novo zelo. A graça educa para um novo gosto, uma nova disposição e prazer para boas obras. Da consciência de pertencer ao Redentor e a seu povo resulta um novo devotamento: não mais ser escravo cativo de si mesmo, e consequentemente não precisar mais viver para si mesmo, isso é verdadeira redenção e libertação para a vida.

O hino termina conduzindo de volta ao começo: Deus faz sua graça brilhar sobre seres humanos que, separados dele e impelidos por desejos mundanos, produziam obras infrutíferas. Redime-os de sua atividade e purifica-os para serem zelosos de boas obras, enquanto permanecem abertos na esperança e expectativa do cumprimento de todas as promessas através de “nosso grande Deus e Libertador Jesus Cristo”. (BURKI, 2007, p. 24)

 

CONCLUSÃO:

Paulo fala que a graça de Deus tem aspecto salvífico e educativo. Assim o crente que está debaixo da graça é orientado a romper com aquilo que não provém de Deus, ele deve renunciar para sempre aquilo que se opõe à fé cristã. Ele também é direcionado e capacitado a viver como filho de Deus. A vida cristã começa com a renúncia da vida anterior caracterizada pela prática da impiedade e das paixões mundanas.

Paulo salientou que o crente deve sempre estar ciente de suas atitudes, nunca perder o controle sendo moderado em suas atitudes. Praticando a justiça com amor em relação ao próximo e levando uma vida de piedade em culto a Deus. É de suma importância a aplicação dessa exortação de Paulo na vida dos cretenses.

Jesus comprou o homem com seu sangue, agora o homem é propriedade de Deus e ele deve viver conforme a graça de Cristo. O sinal exclusivo do povo eleito de Deus deve estar em destaque, que são os frutos do Espírito, que são as boas obras. O propósito de Cristo de a si mesmo se dar era livrar o crente do pecado e da devassidão mundana que o escraviza ainda mais a sua alma que o separa de Deus, e consagrar um povo para si.

  • A graça de Deus tem aspecto salvífico e educacional.
  • A graça nos salva da condenação eterna, do poder do pecado e de nós mesmos.
  • Deus quer para si um povo santo, zeloso e de boas obras.
  • O cristão deve viver de acordo com o evangelho.

 

BIBLIOGRAFIA:

BURKI, Hans, Carta a Tito, Editora Evangélica Esperança, Curitiba, PR, 2007

CALVINO, João. As Pastorais, São Paulo – SP. Paracletos. 1998.

CARSON, D. A. & MOO, D. & MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento, Trad. Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 1997.

COHEN, Armando C. Carta a Tito, 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1984.

DE ARAÚJO, Marcos H. A Singularidade da Teoria da Prudência na Ética Nicomaqueia – Dissertação não publicada, UNESP, Campus de Marília, São Paulo, 2020

KELLY, J. N. D. I e II Timóteo e Tito – Introdução e Comentário, Trad. Gordon Chown. São Paulo:  Mundo Cristão, 1991.

PETERSON, Eugene, O Pastor Descartável – A Redescoberta do Chamado, Trad. Claudio Chagas, Editora Cultura Cristã, São Paulo – SP, 2017

RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave Linguística Do Novo Testamento, Tradução de Gordon Clown e Júlio J. Zabatiero. São Paulo – SP. Vida Nova, 1995.

SPAIN, C. Epístolas de Paulo a Timóteo e Tito, São Paulo: Ed Vida Cristã, 1980.

TAYLOR, W. C. Dicionário do Novo Testamento Grego, 4a ed. Rio de Janeiro – RJ. Casa Publicadora Batista, 1965.

 

 

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