Apelo à unidade

Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste – João 17.20-23

 

Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos – Efésios 4.3-6

 

Se por estarmos em Cristo, nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude – Filipenses 2.1,2

 

INTRODUÇÃO

Todos os textos acima falam da unidade da igreja.

João cita a oração sacerdotal de Jesus e fornece o fundamento da unidade da igreja – a unidade da Trindade.

Paulo aos efésios apela para que os irmãos de Éfeso se esforcem por conservar a unidade do Espírito e cita os motivos para isso.

Paulo aos filipenses enumera razões pelas quais os irmãos de Filipos deveriam cultivar a unidade e a comunhão no Espírito.

São (Tácio) Cipriano de Cartago (200 – 258 AD) escreveu uma obra bem esclarecedora sobre a natureza da igreja – De Eclesia (Sobre a Igreja). Cipriano foi bispo de Cartago entre 248 a 258.

Nos seus dias havia muitas controvérsias sobre quem poderia exercer a liderança da igreja e, em função da perseguição sob Décio que reinou entre 249 a 251, muitos líderes haviam assinado o libelum e arrependidos queriam voltar à igreja na posição de liderança.

Cipriano se opôs à reintegração desses líderes. Cipriano queria assegurar que a restauração desses traditores fosse acompanhada por um bispo devidamente reconhecido pela igreja. Cipriano via como indissolúvel fusão entre a soteriologia e a eclesiologia.

Cipriano defendeu a unidade da igreja com base no episcopado – a partir de Pedro. Cipriano reconhecia a autoridade dos bispos que pudessem comprovar que sua ordenação fosse por meio de outro bispo que pudesse comprovar sua ascendência até Pedro, o apóstolo. Cipriano não reconhecia “qualquer bispo individual como líder de todos”. (Roger Olson, História da Teologia Cristã, 2001, p. 125)

Dos ensinamentos de Cipriano se derivam os Quatro Fundamentos da Igreja:

  1. Unidade
  2. Catolicidade
  3. Santidade
  4. Apostolicidade

Infelizmente Cipriano valeu-se de argumentos equivocados para reforçar a realidade e necessidade da unidade da igreja.

Nos dias de Cipriano, o que podia dividir a igreja eram fatores ligados à política, à lealdade ao imperador, a crença de que qualquer pessoa que tivesse sido perseguida (um confessor), poderia isentar de culpa um pseudocristão que negara sua fé em Cristo (um traditor).

Mas e hoje, o que pode dividir a igreja?

  1. O QUE PODE NOS DIVIDIR

Hoje, em pleno século XXI, a igreja continua sendo alvo de ataques do inimigo que deseja “dividir para devorar”.

Não temos mais que lidar com um imperador pagão perverso e perseguidor da igreja. Décio morreu em 251 na batalha de Abrito, contra os Godos. A igreja goza de liberdade em nosso país.

A controvérsia a respeito da autoridade dos confessores em restaurar os traditores ficou restrita àquele tempo e região. Hoje não temos mais esse tipo de controvérsia entre nós.

Então, o que pode nos dividir? O pecado e suas múltiplas manifestações.

  1. CONDIÇÕES SOCIAIS – DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO

No ano de 1994, eu e Iracy fomos a uma cidade próxima de Ribeirão Preto, a cidade de Santa Rosa de Viterbo. Nessa cidade fica a famosa Fazenda Amália, de propriedade da família Matarazzo. Não pudemos entrar para ver a imponente mansão da fazendo, mas nosso guia nos levou à igreja Matriz da cidade. Nesta igreja havia, tempos atrás um espaço reservado à família Matarazzo para que nele o conde, a condessa e seus filhos pudessem fazer a confissão e receber a eucaristia sem ter contato com o povo.

Entendemos as precauções por parte da liderança da igreja em relação à integridade física dos envolvidos, mas essa discriminação sempre motivo de debates na igreja.

Nos dias do bispo João Crisóstomo (309 – 407) de Constantinopla houve uma controvérsia entre ele e a imperadora Eudóxia. Crisóstomo havia pregado contra o luxo e a ostentação dos ricos e sua pretensão de receber tratamento especial por parte da igreja.

Como resultado do embate entre ambos João Crisóstomo foi exilado duas vezes.

João Crisóstomo se tornou o grande defensor da necessidade de que haja igualdade na igreja em detrimento às condições sociais.

Pode haver privilegiados e desprivilegiados na igreja?

Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com favoritismo. Suponham que na reunião de vocês entre um homem com anel de ouro e roupas finas, e também entre um homem pobre com roupas velhas e sujas. Se vocês derem atenção especial ao homem que está vestido com roupas finas e disserem: “Aqui está um lugar apropriado para o senhor”, mas disserem ao pobre: “Você, fique de pé ali”, ou: “Sente-se no chão, junto ao estrado onde ponho os meus pés”, não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? Ouçam, meus amados irmãos: não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam? Mas vocês têm desprezado o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês? Não são eles os que os arrastam para os tribunais? Não são eles que difamam o bom nome que sobre vocês foi invocado?

⁸ Se vocês de fato obedecerem à lei real encontrada na Escritura que diz: “Ame o seu próximo como a si mesmo”, estarão agindo corretamente. Mas se tratarem os outros com favoritismo, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores – Tiago 2:1-9

 

  1. DIFERENÇAS ÉTNICO-RACIAL – DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO

No ano de 2006 eu, Iracy, Raquel e Lucas fomos a uma cidade de Minas Gerais visitar uns amigos e pregar no retiro de carnaval da Comunidade Evangélica de Nazareno. Lá vimos uma igreja católica no centro da cidade e outra afastada da cidade, num morro alto e construída de costas para a matriz.

A igreja central (Santuário de Nossa Senhora de Nazaré) era frequentada pelos brancos e a igreja afastada era “a igreja dos pretos” (Igreja Nossa Senhora do Rosário)

É de se compreender que nos tempos antigos, por motivos diversos, houvesse essa separação. É compreensível, porém inadmissível. O contexto político e social dos dias explica, mas não justifica essas divisões. A igreja jamais deveria admitir a escravidão e muito menos que houvesse uma igreja para cristãos brancos e outra para cristãos negros.

Nos dias dos apóstolos já havia o desafio de conciliar grupos étnicos distintos. Judeus e gentios precisavam aprender a conviver na comunidade cristã.

Atos 6, 10 e 11 ilustram os desafios vivenciados pelos apóstolos. Igreja como a de Roma e Éfeso erram comunidades mistas e tinham desafios enormes.

  1. CONDIÇÕES CULTURAIS – ORGULHO

Houve, no final do século passado, um grupo, não posso mencionar a cidade, nem o nome da denominação, que se juntaram para formar uma igreja voltada unicamente para cristãos intelectuais. Eles se reuniam, no sistema da Academia de Atenas, liam textos teológicos, trechos bíblicos e se deleitavam em ouvir as explicações de um líder cristão versado nas línguas originais e nos livros teológicos mais raros e profundos.

Tendo tomado conhecimento da existência do grupo eu vaticinei que tal grupo teria vida curta. Meu vaticínio se cumpriu em pouco tempo. O líder, em função de sua avançada idade ficou cego e debilitado fisicamente não podendo dar continuidade ao projeto. O grupo não chegou a tornar-se uma igreja, e creio eu, não poderia mesmo.

  1. OPÇÕES LITÚRGICAS

Numa de minhas viagens a Curitiba fiquei hospedado no prédio da Faculdade Teológica Betânia no bairro Água Verde. Num espaço da Faculdade se reunia no sábado à noite uma igreja com viés roqueiro. O culto era bem excêntrico e cheio de luzes e muito som. Na manhã de domingo uma igreja de orientação conservadora tinha um culto bem mais solene, com toque de teclado, sem bateria e com hinos tradicionais.

Duas igrejas? Será que não seria possível reuni-los? Às vezes que nos separa são caprichos. Preferências de ritmos. Altura do som. Instrumentos usados etc.

É comum que haja nas igrejas grupos que se identifiquem com um determinado tipo de culto, de doutrina, de modelo de liturgia, modo de administração etc.

Na igreja deve haver espaço para a multiplicidade. É da natureza da igreja ser uma em essência e múltipla em suas manifestações.

Um senhor, de idade avançada, certo dia chegou a mim e disse que gostaria de tornar-se membro da Igreja Holiness de Pompeia. Disse a ele que seria um prazer tê-lo na igreja. Anotei o nome dele e preenchi uma ficha com os seus dados. Ao terminar ele me disse que tinha algumas exigências a fazer. Um tanto surpreso eu me pus a ouvi-lo. Ele não gostava de com alto, de bateria, de luzes no palco, de grupo de dança, de prática desportiva no espaço do culto. Eu olhei para ele, devolvi a ficha a ele e lhe disse que procurasse outra igreja. Aquela nunca iria servir a ele.

  1. OPÇÕES POLÍTICO-IDEOLÓGICAS – EGOÍSMO E INDIFERENÇA

No passado recente da política brasileira houve um acirramento dos ânimos políticos. Grupos políticos denominados progressistas entraram num embate ideológico com grupos denominados conservadores. E a igreja ficou no meio do fogo cruzado.

Nas últimas eleições, principalmente devido à grande participação das Mídias Sociais a polarização política no mundo, também no Brasil, houve um acirramento de ânimos nunca antes vistos. Progressistas e conservadores se digladiaram no mundo virtual e real.

Muitas igrejas foram atingidas em função de questões políticas. Líderes religiosos foram cancelados por terem expressado sua opção política. Houve radicalismo de ambos os lados. Essas questões políticas provocando cisões na igreja visível não é uma novidade. Nos dias de Jesus os grupos religiosos também eram políticos e politizados.

  1. OPÇÕES DOUTRINÁRIAS – SECTARISMO

Hoje menos do que nas décadas de 1980 e 1990, as opções doutrinárias têm um grande poder de nos dividir. Hoje há igreja tradicionais, pentecostais, renovadas, históricas, reformadas, congregacionais, episcopais, presbiterianas, neopentecostais e pentecostais radicais.

  1. QUESTÕES INTER-RELACIONAIS NÃO RESOLVIDAS – IMPENITÊNCIA E INCLEMÊNCIA

Quando não há reconciliação entre irmãos a unidade da igreja fica em risco.  O autor de Hebreus nos exorta:

Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor. Cuidem que ninguém se exclua da graça de Deus. Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos – Hebreus 12.14 e 15

 

 

  1. O QUE NOS UNE
  2. A oração do Senhor

Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste – João 17.20-23

 

Nossa unidade é resposta de Deus à oração de Jesus Cristo.

A vivência dessa unidade é a mais efetiva forma de evangelização.

Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros – João 13:34 e 35

 

  1. A unidade da Trindade

Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos – Efésios 4.3-6

 

A unidade da igreja é um reflexo da unidade da Trindade.

Deus Pai, Filho e Espírito Santo é a mais perfeita comunidade.

  1. A comunhão do Espírito

Se por estarmos em Cristo, nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude – Filipenses 2.1 e 2

 

A comunhão do Espírito é uma dádiva a ser cultivada e vivenciada.

Nenhuma organização do mundo tem esse privilégio.

Viver a unidade é um privilégio e um dever.

A unidade é divinamente concedida.

  1. O exemplo de Jesus Cristo

A unidade deve ser manifestada por meio de uma atitude de humildade e abnegação:

Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz! – Filipenses 2.5-8

 

 

  • CONVIVENDO NUM MUNDO PLURAL

Em seu livro Mundo Plural o pastor Timothy Keller levanta questões relacionadas à vivência da fé cristã em um mundo plural.

A questão central deste livro consiste em saber como o cristão pode se relacionar com os que estão à sua volta, respeitando as pessoas cujas crenças são diferentes das suas e, ao mesmo tempo, conservando a confiança no evangelho. […] Recentemente, o consenso presumido da cultura protestante se fragilizou, em parte por motivo de uma conscientização crescente das diferenças nas crenças religiosas (e, cada vez mais, não religiosas). Ao mesmo tempo, tendências profundas e aceleradas em direção ao individualismo e à autonomia erodiram a confiança nas instituições sociais: empresas, mídia, governo, igreja e até mesmo a família. Contudo, com o declínio da cultura protestante, não surgiu outra que a substituísse. Nem o evangelicalismo, nem o catolicismo romano, nem o secularismo substituíram o consenso presumido anterior. Este é o contexto em que formulamos nossas indagações acerca da identificação de um terreno comum, ainda que não concordemos com o que seja o bem comum. Também queríamos investigar de que maneira o cristão pode incorporar a humildade, a paciência e a tolerância, as práticas civis que John identifica em seu livro Confident pluralism [Pluralismo confiante]. Cremos que essas práticas incorporadas estão plenamente de acordo com um testemunho evangélico em uma era profundamente dividida. Na verdade, elas não só abrem espaço para o evangelho, mas também apontam, respectivamente, para as três virtudes cristãs da fé, esperança e amor. (Introdução ao Livro)

 

CONCLUSÃO

A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês – 2 Coríntios 13:14

 

O QUE NOS UNE É A GRAÇA DE JESUS CRISTO

O QUE NOS UNE É O AMOR DE DEUS

O QUE NOS UNE É A COMUNHÃO DO ESPÍRITO.

 

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